Vi-o feliz, alegre, realizado. Tinhas terminado a faculdade,
tinhas emprego e … uma namorada. Entravas e saías de casa sempre bem disposto,
sempre com expectativas, com um sentido, uma direcção, como quem percorre uma
estrada com a certeza de que esse é o caminho certo. As compras, as roupas ao
gosto dela, cores alegres que condiziam com o teu estado de espírito.
Ouvi passos na escada. Entreabri a
porta e vi-a subir atrás ti, de cabelos longos e encaracolados.
A televisão transmitia a missa dominical. Apressadamente desceste as escadas até à sala: Mãe, queres ver? Olha!.. é ela ... ali a cantar … E vi que tinha também uns olhos pretos que irradiavam, mais do que os cabelos compridos e encaracolados, numa beleza singela, feminina, um rosto meigo.
E lembro-me daquele dia que entraste com ela em casa, e a deste a conhecer, e dos dias em que ficava no carro enquanto tu subias a correr as escadas e voltavas a sair, sem dizer nada ... Não precisavas, era transparente a tua felicidade. Nunca te vi tão animado, tão alegre; nunca vi tanto sorriso nos teus
lábios, nunca foi tão fácil a comunicação entre nós. Um dia bem cedo, ainda antes de sair para o
trabalho, te cruzaste comigo à saída do quarto - quando me deste um beijo de bom
dia(!) - me perguntou: - Mãe, sabes há quanto tempo eu namoro com a (...)? - Não sei, um ano – disse eu - talvez (?) - Faz hoje um ano – respondeste, enquanto eu via nos teus
olhos uma expressão de felicidade, que apenas tinhas quando eras ainda um
garotinho.
Talvez tenha eu exagerado na forma como te eduquei. Reconheço
que sempre fui um tanto rígida, talvez mais do que necessário. Reconheço isso, mas foi também devido
à forma como eu própria fui educada; e se há uma coisa em que somos iguais é que não é
preciso dizerem-nos a mesma coisa duas vezes (aprendemos à primeira).
As mensagens no telemóvel: - “Mãe, não vou jantar, estou com a ....” e a mesma resposta quando estavas atrasado e eu te perguntava “não vens jantar?” ... "Desculpa mãe, esqueci-me de te avisar,
vou jantar com a (...).”
Poucas vezes estivemos todos juntos, mas da última vez ela estava distante. E à noite, enquanto tu, no meio da multidão, brincavas - tal como nós sempre fazíamos - com um jeito ainda de criança... e ela distante.
Algum tempo depois, soube que já não andavam juntos. E eu
fiquei triste quando lhe perguntei o que se tinha passado e ele me disse: “nada,
mãe, a (...) diz que não anda muito bem, que era melhor assim, cada um seguir o
seu caminho”. Pela maneira como falaste, vi que acreditavas que aquela seria uma
situação passageira … Não foi e aquele amor ainda vive ti.
Sem comentários:
Enviar um comentário